Por que algumas pessoas brigam tanto?
Você já teve a sensação de que qualquer conversa pode acabar em uma discussão? Uma pergunta simples, uma diferença de opinião ou até um comentário aparentemente pequeno podem se transformar em um conflito que parece não ter fim.
Talvez você conheça alguém assim. Ou talvez reconheça esse movimento em si mesmo.
Em muitos casos, a questão não é sobre aquilo que as pessoas estão brigando. Por trás de uma discussão sobre uma frase, uma atitude ou uma decisão, podem existir necessidades mais profundas, que nem sempre são facilmente percebidas.
Às vezes, é preciso que o outro concorde
Durante uma discussão, é comum que cada pessoa tente explicar seu ponto de vista, justificar suas atitudes e demonstrar por que acredita estar certa.
Mas algumas vezes parece que não basta apresentar a própria perspectiva. É preciso que o outro compartilhe a perspectiva.
Nesse momento, a diferença de opiniões passa a ser algo mais profundo. A outra pessoa, com sua própria maneira de perceber as coisas, ocupa um lugar importante demais: é como se a existência de uma perspectiva diferente colocasse a minha em questão.
Por isso, algumas discussões continuam mesmo quando já não há muito mais o que dizer. A discussão pode deixar de ser uma tentativa de compreender o outro e se transformar em uma tentativa de fazer com que ele veja as coisas da mesma maneira. É preciso fazer com que ele veja aquilo que eu vejo, pense aquilo que eu penso ou reconheça a situação exatamente como eu a reconheço: “Diga que eu estou certo. Diga que você entende. Diga que aquilo que eu sinto faz sentido. Diga que você pensa assim.”
"Sinto que você não me escuta”
Existem algumas frases muito comuns durante os conflitos:
“Sinto que você não me escuta.”
“Você não está me entendendo.”
Essas frases podem expressar uma dor que vai muito além da discussão que está acontecendo naquele momento.
Às vezes, por trás dessa frase existe algo como:
"*Eu vejo o que está acontecendo dessa maneira e sinto que é assim que deveria ser compreendido. Se você não percebe dessa forma, *talvez eu sinta que você não está realmente me entendendo"
A pessoa não está apenas tentando vencer uma briga. Talvez esteja tentando ser percebida, compreendida ou reconhecida pelo outro. Ironicamente, aquilo que aparece como agressividade, insistência ou necessidade de estar certo pode esconder uma demanda muito mais profunda por conexão.
Brigas intermináveis
Às vezes, podemos ter a sensação de que a outra pessoa não entrou naquela discussão por causa do que aconteceu, mas que o acontecimento foi apenas o motivo para uma briga que já parecia estar esperando para acontecer.
Quando a briga é um fim em si mesmo, e não uma discordância de opiniões sobre um acontecimento, podemos estar diante de uma demanda emocional mais profunda.
Por exemplo, em uma briga entre um casal, a atenção de uma pessoa está completamente voltada para a outra. Mesmo que essa atenção venha acompanhada de raiva, frustração ou cobrança, ainda existe uma forma de contato acontecendo.
Nesse sentido, a briga pode acabar servindo, paradoxalmente, para manter o outro próximo e atento. Enquanto a discussão continua, a atenção de um continua voltado para o outro.
Discussões frequentes
Em alguns relacionamentos, uma situação que aconteceu há semanas, meses ou até anos pode voltar durante uma discussão, ou até mesmo iniciar uma "nova" discussão. Algo que parecia ter ficado para trás reaparece como cobrança ou como prova de que o outro continua agindo da mesma maneira. É como se aquilo que aconteceu no passado ainda estivesse presente na relação, porque aquela experiência ainda não foi completamente “digerida”.
Assim, uma discussão sobre o presente pode rapidamente carregar acontecimentos anteriores: “Você fez isso naquela vez também. Eu nunca esqueci o que aconteceu”. É como se existisse um débito na relação que ainda precisasse ser pago, e cada nova discussão trouxesse essa dívida de volta.
Isso não significa que o passado deva ser simplesmente esquecido. Algumas experiências precisam ser reconhecidas, reparadas e conversadas. Mas existe uma diferença entre lembrar o que aconteceu e permanecer preso a uma dívida com o passado. Talvez seja necessário compreender o que ainda está sendo buscado nessa cobrança: reconhecimento, reparação, um pedido de desculpas ou a possibilidade de finalmente deixar aquela experiência descansar.
A psicoterapia pode ajudar
Na psicoterapia, é possível olhar com mais atenção para a maneira como você vive seus relacionamentos e para aquilo que acontece durante os conflitos. Mais do que descobrir quem está certo ou errado, o processo pode ajudar a compreender o que está sendo buscado em cada discussão: ser reconhecido, compreendido, escutado ou ter a própria experiência validada.
A partir dessa compreensão, torna-se possível perceber padrões que talvez antes parecessem apenas parte da personalidade ou da relação.
Também é possível construir outras formas de se relacionar com as diferenças, com o passado e com aquilo que você sente. Isso não significa deixar de expressar suas necessidades ou esquecer o que aconteceu, mas compreender o que permanece em aberto e encontrar maneiras diferentes de lidar com isso. Assim, a psicoterapia pode ajudar a viver seus relacionamentos de maneira mais significativa, de acordo com quem você é e com aquilo que valoriza.
Escrito por

Marcos Nascimento
Psicólogo clínico, formado pela Universidade Federal de Pernambuco, especialista em Psicologia Clínica com pós-graduação em Psicologia Fenomenológica e Hermenêutica pelo Instituto Dasein, além de ser membro do American Daseinsanalytic Institute.
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